Dourados responde por 51% dos R$ 25,3 milhões pagos a editora usada por organização criminosa
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- 18/07/2026 08:23
Entre 2022 e 2025, a editora Avante recebeu ao menos R$ 25,3 milhões de 17 municípios de Mato Grosso do Sul pela venda de livros paradidáticos sem licitação. Mas 51% deste total corresponde a um único município, Dourados, que pagou a bagatela de R$ 13,072 milhões por duas remessas de livros, em 2023 e 2024.
As compras foram feitas na gestão do então prefeito Alan Guedes (PP), que comprou R$ 4.372.772,00 em livros em 2023 e em 2024, mais R$ 8.699.390,00. Mas os negócios com a editora continuaram e, em 2025, já na gestão Marçal Filho (PSDB), a prefeitura empenhou R$ 383.575,50 para a Editora Avante, conforme dados da Portal da Transparência Municipal.
A Editora Avante é o centro da Operação Gutenberg, desencadeada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) neste mês, e que aponta para uma organização criminosa encabeçada pela família Jafar, dona da Gráfica Alvorada, mas que usava uma grande rede de contatos para efetivar a venda de livros para as prefeituras. Os contratos geravam propinas milionárias para os “vendedores”, que usavam até a influência de deputados.
Relatório do Gaeco, mostra que em Dourados um servidor público ajudou na negociação. A dentista Cleany dos Santos Araújo, recebeu R$ 53.500,10 da Editora Avante, em outubro de 2022. O nome ainda consta na folha de pagamento do município, com remuneração mensal de R$ 17.443,50.
Mas a servidora não é a única pessoa de Dourados envolvida no esquema. O Gaeco mostra que logo após o recebimento de R$ 2,1 milhões da prefeitura de Dourados, em 8 de dezembro de 2023, a editora Avante fez várias transferências bancárias suspeitas, como R$ 194,3 mil para Heyder Bartz, apontado como parte do esquema, R$ 20 mil para a Ramoa Materiais de Construção de Dourados e R$ 85 mil para o morador do município, Tiago Leal de Freitas.
Em outro pagamento da prefeitura, dessa vez de R$ 3,7 milhões em julho de 2024, foram feitos vários repasses nos dias seguintes, incluindo R$ 22 mil ao empresário Joatan Gomes Peixoto, R$ 150 mil a Atalaia Veiculos. Paulo Rogério de Melo e seu filho Douglas Henrique, ambos da Atalaia Veículos e Joatan Gomes, foram presos na Operação Gutenberg.
Fraudes duraram 5 anos
Os dados levantados pelo Gaeco e confirmados pelo O Jacaré, mostram que o grupo criminoso começou a atuar em 2022 e até 2026 continuava com as vendas, mas houve um avanço cronológico nos negócios e posteriormente uma desaceleração.
Em 2022, os contratos firmados com prefeitura somaram R$ 3,48 milhões, passam para R$ 8,91 milhões em 2023 e atingem R$ 12,09 milhões em 2024. Em 2025 o negócio desacelera, mas continua ativo. No ano passado, o grupo tentou um grande negócio que era a venda de R$ 28 milhões em livros paradidáticos para o CIDEMA (Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Integrado das Bacias do Miranda e do Apa), formado por 15 cidades.
O Tribunal de Contas do Estado barrou pregão eletrônico que previa a compra. Sem a intervenção da corte fiscal, o grupo dobraria os ganhos com a venda de livros para as prefeituras, de R$ 27 milhões, investigados na Operação Gutenberg, para R$ 55,1 milhões.
Não é difícil achar provas de que o grupo continuava atuando. Em 15 de junho de 2026, dias antes da Operação Gutenberg, a prefeitura de Deodápolis publicou uma ata de registro de preços, com indicação de que pretendia comprar R$ 477.060,00 em livros da Editora Avante.
Confira quais cidades compraram livros da Editora Avante e quanto gastaram
Campo Grande
Adriane Lopes (PP)
- 2023 – R$ 3.271.620
Dourados
Alan Guedes (PP)
- 2023 – R$ 4.372.772,00
- 2024 – R$ 8.699.390,00
Marçal Filho (PSDB)
- 2025 – R$ 383.575,50 (empenhado)
Bonito
Josmail Rodrigues (PSDB)
- 2024 – R$ 357.618,00
São Gabriel do Oeste
Jeferson Luiz Tomazoni (PP)
- 2024 – R$ 937.344,22
Angélica
Edison Cassuci Ferreira, o Edinho Cassuci (PSDB)
- 2022 – R$ 769.375,00
Miranda
Fábio Santos Florença (PSDB)
- 2022 – R$ 1.044.355,00
Ivinhema
Juliano Ferro (PL)
- 2022 – R$ 874.130,00
Ladário
Iranil de Lima Soares (PP)
- 2022 – R$ 459.286,00
Douradina
Jean Sérgio Clavisso Fogaça (PSDB)
- 2022 – 336.075,10
- 2024 – 374.592,00

Rio Negro
Cleidimar da Silva Camargo, Buda do Lair (PSDB)
- 2023 – R$ 150.055,00
Santa Rita do Pardo
Lúcio Roberto Calixto Costa (PSDB)
- 2023 – R$ 870.085,72
Porto Murtinho
Nelson Cintra (PSDB)
- 2023 – R$ 249.964,55
Deodápolis
Jean da Saúde (PSDB)
- 2025 – R$ 474.876,00
Valdir Luiz Sartor (DEM)
- 2024 – R$ 607.443,10
Rochedo
Francisco de Paula Ribeiro Junior (PSDB)
- 2024 – R$ 449.856,00
Cassilândia
Valdecy Pereira da Costa (PSDB)
- 2024 – R$ 670.701,20
Confira a relação dos 16 alvos dos mandados de prisão preventiva
- Rossana Paroschi Jafar, 54 anos, empresária;
- Olívia Paroschi Jafar, médica e filha de Rossana;
- Felipe Paroschi Jafar, 34 anos, ex-comissionado na Agesul e filho de Rossana;
- Giovanni Paroschi Jafar, empresário e sócio da Gráfica Alvorada
- Rhayane Souza Fanaia, ex-nora de Rossana;
- Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, o Júnior Vasconcelos, 45 anos, ex-prefeito de Fátima do Sul e assessor parlamentar;
- Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador de regulação de MS;
- Jéssyca Burgatt, 31 anos, empresária e filha de Ed Carlo;
- Francisco Anizio dos Santos, 40 anos, empresário
- Matheus Oliveira Peixoto;
- Joatan Gomes Peixoto;
- Paulo Rogério de Melo, empresário;
- Douglas Henrique de Melo, 36 anos, empresário e filho de Paulo;
- Geancarlo Leal de Freitas, advogado;
- Gabriel Taquino de Paula, 31 anos, advogado;
- Heyder Bartz, empresário está foragido, segundo o MPE.
Durante o cumprimento de 40 dos 43 mandados de busca e apreensão, o Gaeco apreendeu R$ 200 mil em espécie e R$ 3 milhões em cheques.
O Governo exonerou Burgatt após a prisão e nomeou o médico Rodrigo Silva Quadros como coordenador da Central de Regulação e Assistência da Secretaria Estadual de Saúde. Ele foi chefe do Pronto Socorro da Santa Casa e coordenador do SOS Unimed.
Priscilla Peres/ O Jacaré


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